Ocupar o Parlamento


“Estava atoa na vida
O meu amor me chamou pra ver a banda passar cantando coisas de amor ” …
Chico Buarque de Holanda

Numa das falas de José Reinaldo, durante o II° Congresso do CEBRAPAZ no Rio de Janeiro, há um relato da experiência do Partido Comunista Chileno, que apesar de fazer 30% dos votos e conseguir incidir sobre a luta operária da população chilena, não atinge o coeficiente necessário à eleição de seus representantes no legislativo, devido a uma legislação bipartidária próxima do modelo americano.
Em outro momento, nos textos de preparação ao congresso, o camarada Walter Sorrentino traça uma radiografia do Partido com 200 mil filiados e cerca de 70 mil militantes, dentre os quais um número expressivo com mais de 20 anos de vida partidária.
A estratégia tomada pelo partido nos últimos anos, após a ditadura, nos revelou um desconcerto com a realidade diante da qual viramos as costas; a vida pública, que só nos servíamos de púlpito de denúncias e extensão da organização dos movimentos populares, dos quais os comunistas participavam. Estranhamente, nossos companheiros parlamentares, com seus defeitos e limitações, estão sempre dentre as 100 melhores cabeças do Congresso Nacional jogam sempre um papel fundamental na garantia de direitos dos trabalhadores e do país.
Aqui se apresentou um dilema que, ao que me parece, estamos próximos de superar, visto que nossa preocupação tem se demonstrado em fortalecer o partido nas urnas desde o 1° Gov. Lula, ainda que com um acerto maior em certos locais em detrimento de outros, às vezes, de forma surpreendente, como a vitoriosa ida de Flávio Dino ao 2° turno, em Natal.
O voto universal, como relata Buonicore em um de seus textos sobre a formação do Partido Comunista, é vista já por Engels como um passo atrás da burguesia aos trabalhadores, haja vista como estes caminhavam ao confronto direto em sua formação original, como partido revolucionário predisposto a formar a sua própria ditadura em face da ditadura do parlamento burguês do período. Há ainda que se dizer que, se há cerca de 40 anos atrás, alguns tombaram diante da guerrilha, nossa dívida para com eles é ocupar os espaços democráticos, conquistados com o suor e o sangue desses camaradas.
Portanto, o projeto de “mergulho nas massas”, termo usado por muitos de nossos camaradas, deveria ser adaptado para retirar do meio das massas, militantes invisíveis, para a vida pública mas que dentro do partido são os nossos ditos quadros de massa, quadros de partido, militantes que dedicaram a vida diuturnamente, e que ainda trazem consigo o ranço do sistema eleitoral vigente. É sempre bom lembrar a todos que estar comunista ou estar parlamentar ou mesmo estar dirigente deste, ou daquele órgão de determinada frente, seja ela sindical ou comunitária, são tarefas partidárias e o parlamento é uma tarefa de partido, não uma benesse da qual tenhamos que ter vergonha. Aliás, diga-se o contrário, somos educados, tanto dentro dos moldes burgueses, que espaços públicos, sejam eles postos de trabalho, cadeiras nas universidades federais, ou mesmos cadeiras parlamentares, são ornadas para aqueles que a sabem usar. E quem são esses? Os burgueses de fino trato, que fazem política para burgueses, que refinadamente, nos trazem observações do tipo “Sua riqueza é seu compromisso com a comunidade ‘Aqui leia-se comunidade”. Aquela onde os burgueses só entram ou de dois em dois anos, ou nos momentos dos mega projetos sociais, dos quais as “comunidades” entram e saem carentes.
Na nossa ingenuidade, nós os consideramos como donos de uma ciência sem dono, de uma ciência elaborada ao longo de séculos de vida da nação.
Portanto, a participação popular no parlamento, ao contrario do que se tentam inculcar em nossas cabeças, não é feita para iluminados e sim para aqueles que sentem na pele as necessidades cotidianas. E sim, muito teremos que estudar para fazermos parte desse pequeno e seleto clube de selvagens. Quem criou a selva de pedra e a muralha segregaria entre brancos e negros ou entre ricos e pobres, renegando a existência até de classes antagônicas, espera que a morte nos salve, eles não vão deixar barato, para entrarmos de penetra em seu clube de luxo, com regras do jogo preestabelecidas que só se mudam na marra e na luta.
A luta, camaradas, nesse momento de construção de um PND, não é um mero esboço teórico nem retórico, em um livro que o tempo vai curtir a poeira. Essa luta começa na elaboração coletiva do projeto. Não são essas as regas do jogo? Já sabemos que a arbitragem é deles e só nos restas alterar as regras, com um Partido herdeiro de uma câmara de vereadores com bancada de 70%, como tivemos na década de 40 no Rio de Janeiro, na época, capital brasileira.
Só quem tem propriedade pra dizer onde seu calo aperta é o dono do calo, não espere sentado que este modelo não veio pra ficar, mas não vai cair de maduro, nós temos de derrubá-lo e nosso passo fundamental e inverter a lógica das regras do jogo, pois estas já caducaram. É hora de Impormos a nossa agenda. Já bateram os sinos e parecemos surdos ao povo que esta disposto a ocupar tais cargos. Se não estivermos à altura da nossa realidade, o bonde da história vai passar.

Bruno José de Oliveira
Secretário de Organização do Distrital Méier Rio de Janeiro

Texto enviado a tribuna de debates do 12° Congresso do PC do B
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