Homenagem a Dona Maria de Vila Maria


D. Penha Maria dos Santos Braga, ou D. Maria, como é conhecida, nasceu em 1938, na cidade de Alegre, no Espírito Santo. Nunca freqüentou escola. Trabalhou como empregada doméstica em sua juventude, até casar-se. Em 1962, mudou-se para a favela do Jacarezinho, com a sua família. Um ano depois, foi morar em uma vila de barracos próxima, no bairro Higienópolis. Em 1975, a Secretaria Estadual de Segurança Pública, sob a alegação de que precisaria do terreno onde localizava-se a favelinha para construir um albergue para ex-presidiários, removeu as oito famílias que moravam naquele terreno para um conjunto habitacional em Senador Camará, bairro da Zona Oeste. D. Maria não foi com as outras. Alugou uma casa no bairro. Ela trabalhava como cozinheira em um bar perto do terreno onde tivera a sua casa. Freqüentemente, passava por lá. A Secretaria não fizera mais nada no local, a não ser um portão que, fechado a cadeado, impedia a entrada de pessoas naquela área. Lá dentro, o matagal tomara conta do terreno.

D. Maria não se conformava com a perda da sua casa. Em seu íntimo, martelava uma idéia que tornou-se quase uma obsessão para ela: tinha de voltar. Só que os tempos eram violentos e ela não atinava com o que fazer para recuperar o lugar onde morara. Em 1975, a ditadura atingira o seu ápice. Mas, três anos depois, começou a emitir sinais de enfraquecimento. Em 1979, Brizola decidiu-se a voltar para o Brasil. Os partidários daquele chefe político iniciaram os preparativos para o seu retorno. Levada pelo Sr. Manoel, um vizinho, D. Maria filiou-se ao partido em formação e ali conheceu vários políticos e intelectuais do campo da esquerda. Conversando com uns e outros sobre o seu desejo de retornar ao local de onde fora despejada pelo Governo, foi incentivada por eles a ir em frente. Entusiasmada, tratou de convencer o Sr. Manoel, que ainda estava receoso de entrar nesta empreitada, pois sofrera perseguição política em 1964. Passou-se mais dois anos. No início de 1981, os dois entraram em acordo e juntos, passaram a visitar os moradores que foram removidos em 1975, convidando-os a voltarem de novo a ocupar o terreno, que estava abandonado, cheio de mato. E já tinham um plano desenhado. Entrariam no dia 28 de fevereiro daquele ano, na madrugada de sábado de carnaval, aproveitando o feriado para construírem os barracos e caírem dentro deles com as crianças. Como reforço, contavam ainda, assim que a notícia corresse, com a afluência de centenas moradores das comunidades próximas. Assim, em vez de um terreno mal ocupado com oito famílias, haveria muitas dezenas de famílias ocupando cada palmo do terreno. Deste modo, seria mais difícil para o Estado empurra-los para fora. Foi assim.

Na madrugada do dia 28, às cinco horas da manhã, conforme o combinado, a ocupação foi iniciada. Os policiais chegaram logo, chamados pelos vizinhos do bairro, apavorados com aquele movimento de gente maltrapilha no terreno baldio, pressentindo já o surgimento de uma nova favela bem ao lado de suas casas, a desvalorizar-lhes os imóveis. D. Maria, coerente com a sua iniciativa, chamou para si a responsabilidade de representar os posseiros, tanto diante dos policiais irritados com aquela novidade maldita para eles a apurrinha-los no carnaval como diante daqueles que chegavam em busca de chão, às vezes reagindo agressivamente ao fato de não encontrarem mais lugar. Dá para imaginar a pressão a que se tinha de resistir para manter as ruas largas ao longo de todos os trajetos e praças amplas o suficiente para manobra de carros. A atuação de D. Maria foi fundamental para a consolidação desse traçado. Com a sua autoridade de senhora, emanada do seu pioneirismo, determinação e coragem, submetia à obediência os recalcitrantes mais teimosos. Naqueles dias iniciais, turbulentos, D. Maria cresceu, legendou-se e tornou-se um ícone, uma ferramenta para unificar os interesses diversos, particulares, quase sempre conflitantes, existentes na comunidade. E em homenagem a sua luta, os posseiros deram à ocupação o seu nome: Vila Maria.

A Vila Maria foi fundada em 28 de fevereiro de 1981. Em uma área de 13.000m² acomodam-se 280 casas, oito comércios e cerca de 900 moradores. A Vila Maria é plana e totalmente urbanizada. Situa-se no interior de um grande quarteirão, com entrada e saída por um só corredor, que desemboca na Av. D. Hélder Câmara, 2326, Higienópolis. Tem um feitio alongado, de vila. Dista cerca de quatrocentos metros da comunidade do Jacarezinho. Possui uma rede regular de água e esgoto construída por mutirão, em 1981. É eletrificada desde 1982 pela Light e a sua iluminação pública é feita pela Rio Luz. A coleta de lixo é feita pela COMLURB nos domicílios todos os dias, inclusive domingos e feriados. As cartas são entregadas pelos correios diretamente aos moradores. Em 1985, a Vila Maria foi contemplada pelo programa Cada Família Um Lote e todos os posseiros receberam títulos de posse. Em 1988, a Vila Maria foi totalmente asfaltada. Ela é representada politicamente pela Associação de Moradores, fundada no terceiro dia da ocupação. D. Maria participou dos três primeiros mandatos. De 1981 a 1986 foi vice-presidente da Associação. De 1987 a 1989, foi presidente da mesma. Em 1991, o IBGE classificou a Vila Maria entre as dez favelas com melhor qualidade de vida.

Dona Maria deu exemplo. Naquela época, havia uma grande fermentação da miséria nacional, agravada pela ditadura que já não conseguia manter o controle da situação. O seu mérito foi ter aproveitado o momento que já se mostrava propício quando ainda muitos não o enxergavam. Mostrou que a adversidade pode ser superada pela luta. Homenagear a D. Maria é reconhecer a boa cepa da mulher negra e favelada. É quebrar o discurso ideológico de que a mulher e o negro são indolentes e incapazes de cuidarem de si mesmos. Nos momentos mais difíceis, as mulheres e os negros sempre deram provas de força e capacidade. D. Maria ainda mora na comunidade que ajudou a fundar e construir. Ainda brinda a todos com a sua sabedoria adquirida na escola da vida. E ainda surpreende.

29.10.2009. Paulo. Assoc. de Moradores. da Comunidade de Vila Maria.

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